quarta-feira, 13 de abril de 2011

Da estrutura de onde queres

 Se do céu cai chuva
Então me enterro no edredon
Se o despertador grita
Então não creio
Se ando pelo gueto
Então sou irmão
Se demoro pra chegar
Então vou pro Recreio
Se somos brasileiros
Então não entendo
Se estou no podrão
Então me lambuso
Se boto a calça Jeans
Então me aperto
Se a cerveja está gelada
Então me afogo
Se a conversa está animada
Então não durmo
Se perco o sono
Então amo
Se encontramos a multidão
Então tenho saudade
Se perco a voz
Então é gol do Mengão
Se vejo a criança sorrir
Então me emociono
Se vejo o falso malandro
Então me emputesso
Se grito minhas críticas
Então me exponho
Se insisto nelas
Então fico chato
Se quero ser chato
Então não paro mais
Se gargalho sozinho
Então estou lembrando
Se fico bastante tempo sem dormir
Então trabalhando
Se peço silêncio
Então toca Caetano
Se escuto alguém falar de futebol
Então é Armando
Se estou com fome
Então viro uma jibóia
Se estou com preguiça
Deixa pra hora de sair, o banho
Se estou muito quieto
Então não estou sóbrio
Se perdi o sono de novo
Então estudando
Se alguma hora enlouqueci
Então precisei

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Depoimento de um antitabagista que frequenta a área dos fumantes


 Galera o objetivo desse post é, fundamentalmente, discutir o que leva uma pessoa a começar a fumar e a maneira - as vezes aceita e outras não - de encaixe dela em um ambiente coletivo . Não, isso aqui não é uma campanha (existe uma campanha nazista condenando os fumantes, eu sei) contra os fumantes, mas sim uma real busca pela resposta.
Acho que a principal influência, como para a maioria dos hábitos que se adquire, advêm dos pais. Porém enquanto crianças (sabias que são): criticam, tomam o cigarro, enchem o saco dos pais os condenando o hábito e no fim das contas acabam aderindo.
Outra explicação contundente é necessidade que o adolescente tem de se inserir em determinado grupo e/ou se destacar do lugar comum. Uma auto-afirmação, a busca de um charme, um diferencial, a busca incessante por códigos de aceitação.
Também existem aqueles que aderem tardiamente, pra esses só consigo vincular a uma falsa sensação de dormência para uma profunda dor, ou simplesmente um falso remédio para a ansiedade.
Por fim os que fogem da minha capacidade de compreensão, os tão famosos e famigerados que fumam quando bebem (Putz!!!).
A bateria de estímulos característica de uma cidade pode atormentar o psico do ser humano: buzina, gritos, barulho de todos os tipos, muitas pessoas no seu caminho, hora certa pra tudo, compromissos, engarrafamento, pressão, toques de telefone, toques do seu telefone (cansei só de pensar) torna compreensível a permissão que as pessoas se dão para fumar um cigarrinho. O cigarro funciona como um cronômetro é o tempo que o ser humano se permite: ter um pouco de paz, pensar em coisas particulares, ou não pensar em nada simplesmente, mas fundamentalmente o refúgio, um abrigo que o proteja do frenético úrbio (me permito escrever sobre o ambiente a que pertenço).
E tem, também, a reunião dos fumantes, a comunhão. Aquela fugidinha pra fumar um cigarrinho com o seu companheiro de hábito, onde se aproveita para um bate papo amistoso, uma paquera, um ambiente paralelo ao seu entorno. Esse ambiente paralelo é que motivou o título do post, depois que fizeram a lei dos fumantes, percebi que me identifico com esse ambiente. Depois de inúmeras vezes em que se debandaram todas as pessoas das quais gosto de conversar para a área dos fumantes. Das vezes em que ia ficando sozinho tinha de ir garantir a minha tentativa de câncer no pulmão, ou um enfisema como fumante passivo nas áreas dos fumantes, mas o que mais me intrigou foi às vezes em que não fui pelo motivo óbvio de detestar cigarro e me vi diante de um ambiente inócuo, sem assunto.
O que ouve com vocês? Os que ficaram na ambiente normal, não fumam, mas também não bebem e também parece não ter assunto (claro que não estou rotulando ninguém, falo a partir de empiria, aconteceu um sem número de vezes isso), ou bebem pouco por estarem num bar, mas não tem assunto, ou estamos falando mal de cigarro, mas isso só dura 2 minutinhos. “Valeu galera vou dar um pulo lá pra tomar conta da minha muié, rsrsrsrsrsr”. E lá vou eu para área dos fumantes, onde encontro descontração, assuntos interessantes, risadas e muita fumaça (PQP).
Meus pêsames por virarem escravos de algo tão ofensivo, vão pro inferno por me gerarem propensão a diversas doenças e parabéns por inventarem o chill out do cotidiano urbano.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Lapa: onde tudo começa, ou termina.

Bom dia galera. Estava pensando em algum tema cotidiano para postar e fiz uma pesquisa no HD que "Deus" me  deu, então o cenário que mais veio a tona não podia ser outro.
Meu primeiro contato com a Lapa foi aos 14 anos, onde o tive a experiência de morar num Flat por 6 meses em um caráter provisório, sozinho. Nesse momento tive medo e não sai do apartamento. Tinha morado quase toda a minha infância na Barra da Tijuca - quanto contraste. No ano 2000 a Lapa ainda era bem diferente do que é hoje em dia. Aquelas imanges ficaram na minha cabeça, um bairro onde as pessoas bebiam bastante todos os dias e em que eu ia pra colégio dando bom dia aos travestis.
Mas o meu contato mais próximo com a Lapa se fez 2 anos depois e perdura até hoje e provavelmente permanecerá por muito tempo. De lá pra cá o bairro sofreu muitas transformações, não pagávamos tão caro na breja e também não víamos tantas viaturas. Embora já existisse a tradição das sextas-feiras (essa que foi dissolvida, por não lotar apenas nas sextas), o lugar era bem mais inóspito e até um tanto quanto sombrio, mas não menos mágico.
Joaquim Silva testemunhando pequenos shows para um público bem peculiar, pessoas de todos os bairros e de variadas classes sociais, quase todos com o objetivo de escutar o artista da rua e alterar seu estado de sobriedade de maneiras não menos variadas. Aquela adrenalina no sangue fruto do perigo oferecido pelos batedores de carteira, em minha opinião, não tirava o encanto da localidade. Próximo do que rola nos dias de hoje, nesse tempo, que eu lembre, só na Fundição Progresso trazendo figuras respeitadas no cenário alternativo. Vez em quando eventos gratuitos em frente aos arcos abrilhantavam o cartão postal mais democrático da cidade.
Alguns anos se passaram, muitas coisas mudaram (mas muitas mesmo!!!) as pessoas se multiplicaram, a mídia passou a dar muita atenção e perdemos o caráter espontâneo da tão peculiar Joaquim Silva, porém ganhamos uma infinidade de eventos de maior porte que, indubitavelmente, tem papel fundamental na produção cultural não só do Rio de Janeiro como no Brasil inteiro.
Embora encontremos as casas repletas sem termos chegado as 22:00, ainda tenho o bairro como referência de uma saída para se divertir. Quanto ao perigo, não sei se diminuiu, as possibilidades de alteração do funcionamento natural da mente escassearam, as opções de entretenimento aumentaram, também inflacionaram. O caráter democrático, característica mais importante da vida noturna no bairro, hoje vive um paradoxo. Embora ainda encontremos pessoas de todos os lugares e classe, estão com os seus lugares delimitados pelas regras monetárias. Não precisa ser nenhum sociólogo pra perceber a diferença entre as Lapas dos depósitos e da Lavradio.
Contudo, a identidade do verdadeiro carioca tem a cara da Lapa. Não conheço outro lugar onde podemos numa única noite curtirmos Samba, Funk, Rap, Música Latina, Hip Hop, MPB, Rock'n Roll e seguindo a lógica do mercado até Sertanejo; pagarmos R$ 0,50 numa lata de cerveja e também R$ 5,00 numa lata de cerveja; matarmos uma barata na porta de um estabelecimento que cobra R$ 60,00 SECO!!!
Salve o Circo Voador, Democráticos, Fundição Progresso, Punto Latino, Asa Branca, Beco do Rato e porque não o Lapa 40° e o Rio Scenarium, salvem o Mangue Seco, Bar Brasil, o antigo cachorro quente da Kombi de R$ 1,00 e também o Manoel e Joaquim; salve Joaquim Silva, Riachuelo, Mem de Sá, Gomes Freire e também a Lavradio. Salve o verdadeiro carioca, salve o lapense!!!

Sugestão de Música: Fogo na Bomba - De menos crime
Sugestão de Filme: Edifício Master